Privacidade e proteção de dadosÉrika Romão

China e Europa investem bilhões para ter IA própria. O Brasil tem um plano, mas com uma fração do dinheiro. Enquanto a soberania não chega, dá para usar as IAs estrangeiras sem entregar seus dados: basta tarjar antes de enviar. O Brasil vai construir sua IA. Até lá, a gente anonimiza!

Em julho, o governo chinês virou sócio da Moonshot, dona do Kimi, um dos modelos de IA mais bem avaliados da China. Pouco antes, o mesmo fundo estatal tinha entrado na DeepSeek, que levantou US$ 7,4 bilhões. Não é coincidência, é estratégia: quem controla a IA controla também os dados que passam por ela.

Quem não recebe dinheiro público joga no mesmo time. A Alibaba distribui o Qwen de graça pelo mundo para disputar terreno com as IAs americanas, que dominam o mercado desde a chegada do ChatGPT. Já a ByteDance, dona do TikTok, recebeu ordem de Pequim para recusar dinheiro americano sem aval do governo. O recado é claro: cada país quer que a sua IA responda a ele. Isso é soberania.

A Europa, mais diplomática, juntou todo mundo numa mesa e aprovou € 37 bilhões para dez "gigafábricas" de IA. De quebra, a francesa Mistral acabou de levantar € 3 bilhões, a maior rodada da história da tecnologia europeia (TechCrunch). A ironia é que todas essas fábricas vão rodar em chips americanos.

E o Brasil? Tem um plano, e isso não é pouco. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê até R$ 23 bilhões em quatro anos, com direito a supercomputador no Rio Grande do Norte. Mas vamos à conta: só a captação da DeepSeek dá cerca de R$ 40 bilhões, quase o dobro disso. Não é pessimismo, é aritmética. A nossa IA soberana vai chegar, mas não no próximo trimestre.

Enquanto isso, a vida segue. E a vida, hoje, passa pelo ChatGPT, pelo Gemini, pelo Claude. São advogados resumindo processos, equipes de RH analisando contratos, servidores públicos organizando requerimentos. Ninguém vai deixar de usar a melhor ferramenta disponível no mercado esperando a brasileira ficar pronta. Nem deveria.

O problema é o que vai junto no anexo: nome, CPF, endereço, diagnóstico médico, salário. E não adianta o servidor ficar em São Paulo: pelo CLOUD Act, empresas americanas precisam entregar dados ao governo dos EUA quando solicitadas, estejam esses dados onde estiverem. Isso sem falar na LGPD, que não aceita "foi a IA" como desculpa.

Então ficamos assim? Ou usamos IA estrangeira e abrimos mão dos dados, ou protegemos os dados e ficamos para trás? Eu acho que não. Soberania não é só ter o modelo, é decidir o que sai do país. E isso dá para fazer hoje, com uma técnica que o Judiciário conhece há décadas: a anonimização.

Foi para isso que criamos a DocSec. Nossa IA encontra os dados pessoais e sensíveis no PDF, inclusive em documento escaneado, e troca tudo por rótulos numerados. O texto continua fazendo sentido para qualquer IA, uma pessoa revisa cada mascaramento e os documentos ficam no Brasil, sem servir de treino para modelo nenhum. Em resumo: a IA estrangeira faz o trabalho pesado, e os dados ficam aqui.

Não é a solução definitiva para a soberania brasileira em IA. Essa depende de investimento, política pública e alguns bons anos. Mas é o jeito de ganhar tempo sem pagar com os dados dos seus clientes.

O Brasil vai construir a sua IA. Até lá, a gente anonimiza!

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